Hoje estou cansada. Cansei de competir comigo mesma e perder. Cansei de querer chegar à frente de mim mesma. Compito sozinha. Computo minhas dores, meus amores, corro atrás de um tempo que já passou, de um tempo que não tenho mais, e de um tempo que virá. Por isso ando exausta. Por querer definir o indefinível. Preciso despregar-me do desnecessário de saber as respostas para o que não consigo sequer definir as perguntas. Preciso de outros horizontes. A água que molha a terra um dia volta para a nuvem, e para isso se condensa, se renova para aparecer fresca e cheirosa. É disso que preciso agora, desse frescor renovado. Renovação. Renovar a ação e deixar que ela cuide do que é velho em minha vida. O velho em nossas vidas é todo aquele ou aquilo que ficou. Que não permitimos partir. Que não permitiram que nos deixasse. Não quero renegar o velho, ao contrário. Quero voltar à casa de tudo que é velho com vaso em mãos de flor que cultivei em meu próprio jardim. Quero continuar amando, mesmo que doa. Mesmo que às vezes precise dar a outra face à surra. Amor não envelhece, o que envelhece são algumas formas de amar. Mesmo que velho o amor o é, e por ser amor, há sempre que se agradecer. Por poder amar, há sempre a dádiva da vida. Pela dádiva da vida há sempre gratidão. Pela gratidão, há sempre o peito aquecido. Pelo peito aquecido, há sempre um sorriso no rosto. Pelo sorriso no rosto há sempre a leveza que procuro. Mesmo exausta, não me canso de amar, dessa bagunça organizada que inventei, que não deixo ir, que não deixam que vá... a vida é tão curta. A vida é rara. A vida passa. Eu tenho ficado. Espero e tenho esperança no amor que tenho e, sobretudo, no amor que posso ter...mas hoje estou cansada. Hoje começo novos parágrafos em meus textos...
Vanessa Zordan
terça-feira, 21 de junho de 2016
Novos parágrafos
Calendário
Inverno, fim de tarde
O carrinho não lhe cabe nas mãos
Quer segurá-lo, mas facilmente vai ao chão
Há tanta beleza nas suas tentativas frustradas
Nos seus surtos de teimosia insistente
Que mal vejo o tempo que passa
E quando me dou conta chega a primavera
Enche de cores a nossa janela
E as suas investidas para novas descobertas
Já é verão e descubro que há tempos
Suas mãos com o carrinho já tiveram êxito
E por hora se ocupam de outro brinquedo
E mais outro, e depois se movem pelos cantos da casa
A buscar brinquedos em forma de objetos proibidos
Oriento cheia de um amor que nunca imaginei sentir
Proponho novas brincadeiras, outros obstáculos.
É fim de tarde outra vez...
Abro um calendário que parece nunca ter existido
Tão rápido foi desfolhado pelo outono do tempo
Meu menino cresce.
Vanessa Zordan
domingo, 9 de novembro de 2014
Singular
Meu bem
Logo você vem
Logo você chega
Você já está
Vem para ficar,
E volta para ver
O que eu não sei enxergar
Vem para me ensinar a dizer
O que eu não sei dizer
E fazer, e sentir, e me dar
Vem para ser
O que já é, já foi e sempre será
Vem para me eternizar
Na conjugação de amar
É você meu verbo
É singular.
Vanessa Zordan
segunda-feira, 25 de agosto de 2014
sábado, 7 de junho de 2014
Resíduo
À Carla Tocchet (formadora do
programa Ler e Escrever)
Não bastasse a audácia de se
despedir, ela ainda usa o “meu” poeta preferido, junto com um dos seus (dele)
poemas mais lindos e “meu” preferido como sendo ambos “seus” preferidos. Ela
deixou com isso um buraco aqui dentro. Na verdade, ela deixou um buraco aqui
dentro com a audácia de se despedir. Audácia é pouco, é eufemismo. Mesmo que eu não estivesse mais...mesmo que eu
já tivesse saído de cena, deixado o barco, um dos meus pés ainda estava na
proa. Minha eterna proa, meu eterno barco do qual ela era uma das comandantes.
Um dos meus grandes modelos. Estive nesse
barco por 6 anos, e o mar que naveguei com ela foi imensurável de se
calcular...milhas e milhas de tempestades e pores de sol. Ajudou-me a ficar
firme quando a única saída que me parecia mais plausível era desistir. Então eu
recebia a dose mensal dos ensinamentos dela, desse feitiço que ela tem e que
traz à tona a percepção de como proceder, de que é possível vencer os
obstáculos na educação e de que não é tão penoso assim. Ou de que sim, é penoso,
porém ela me abria as portas de um mundo novo, cheio de possibilidades para
quem acredita, tem vontade e amor pelo que faz.
Por vezes ganhei seu jeito de
fazer as coisas, suas expressões, “bacanisses”, neologismos que impregnaram –
“De onde essa Carla tira essas coisas?” – e fizeram parte mim...na verdade, fazem
parte de mim. Nunca deixarão de fazer parte de mim, da profissional que estou
me tornando a cada dia, e de todos que tiveram o privilégio de viajar nesse
barco.
Mas ela teve a audácia de se
despedir... sabemos que não é um “adeus”, e sim um “até logo”. Sabemos também
que o que ficou dela em cada um de nós será sempre ampliado, pois um formador
de verdade é aquele que deixa seus pupilos em condição para caminhar sozinhos
e de forma crítica. Ficaremos aqui, sem enxergá-la com os olhos, mas tendo a
certeza de que seu brilho continua em nós, através dos conhecimentos que
construímos juntas, e que fazemos questão de espalhar feito vento por aí.
As pessoas se eternizam pela
intensidade com que se doam. O resíduo dela em nós já é eterno.
quarta-feira, 7 de maio de 2014
Chove
Eu vim mesmo para te dizer
Que a previsão do tempo diz que não chove
Mas ainda que eu ignore
Há chuva em mim
Sai o sol e fim
Sai o arco íris, enfim
O céu se abre, por fim
Mas a chuva não cessa
Chove, e eu tenho pressa
É certo que a previsão errou
Porém não me distraio
Simplesmente vou
Estou sempre pronta!
E, se não estiver, sou.
Vanessa Zordan
segunda-feira, 21 de abril de 2014
sexta-feira, 18 de abril de 2014
Eu tinha um poema escrito
Eu tinha um poema escrito
Em um caderninho
Mas agora não sei onde está
Não, não era o caderno vermelho
Era um caderninho menor
Em espiral
Onde marquei algumas aspirações
Em forma de versos
Para ficar mais bonito
Mas agora não sei onde está
E esse vazio estranho há de ser preenchido
A poesia sempre encontra espaços para preencher
Sem que ninguém autorize, ela vive em nós
Meu caderninho não sei onde está
Mas há de aparecer
Senão invento outra vez, escrevo onde for
Não importa
Pois é perdendo e achando
Que a vida se faz
Toda flor que nasce
Um dia volta a ser semente
Vanessa Zordan
sábado, 22 de fevereiro de 2014
Em tempos de Facebook
Publiquei mas não marquei
De fato, foi melhor assim
Enganei-me que marquei para você
Mas na verdade só você marcou em mim.
E sendo assim
Exclui-se e... fim.
sábado, 15 de fevereiro de 2014
Sopro
Seu nome em minha boca
Exercício diário
Lembrar a sua mágica aparição
Bem e mal necessários.
Foi assim por algum tempo
Mas e hoje?
Hoje me cansei
Hoje seu nome se cansou da minha boca
Hoje minha boca despregou-se do seu nome
Hoje há cãibra nas mãos
Pela lição de casa mal dada
“Repita cem vezes no caderno de pauta,
mas do jeito certo.”
E repetir cem vezes, e continuar errando
Qual é o certo, afinal?
Cansei rápido dessa vez
Será definitivo?
Apagou-se de todo este fogo
Aos poucos sucumbido?
Ou um sopro seu o reacenderia?
Nesse caso, a boca que se cansa
É só a minha.
Vanessa Zordan
domingo, 26 de janeiro de 2014
sábado, 11 de janeiro de 2014
Sinal fechado
Precisava correrMas o sinal foi mais rápido
Fechou e ela ficou
Por um momento contestou sua pressa
E a dividiu comigo
Era a preço que pagava por aproveitar demais, disse
Um passeio, um cardápio, um grande amor, não sei
Só sei que ela atravessou antes que o sinal reabrisse
Suas cores na Av. Paulista as fizeram uma só
Quem sabe chamava-se Paula?
Estava aprendendo a avançar sinais
Era só mais um
E por hoje bastava.
Vanessa Zordan
domingo, 22 de dezembro de 2013
Mais de trinta
Mais de trinta anos vividos
Sem me conhecer direito
Havia uma blindagem opaca
Fazendo hora em meu peito
E foi assim desse jeito
Que uma luz foi entrando
Desmanchou gradualmente o feito
Aumentou o quebranto
Mais de trinta anos perdidos
Será fim ou recomeço
Desespero-me ou faço festa
Pelas horas que gastei
Sem estar de fato em mim?
terça-feira, 17 de dezembro de 2013
Depuração
Ando tão submersa em mim mesma
Abafo o cheiro das memórias
Para que não sejam detectadas à
minha presença
Ou a olhos nus, por qualquer um
(São meus segredos)
Em ausências me encontro comigo
E com fantasmas, alegrias e
tristezas
Ando tão submersa em minha memória
Estado suspenso no ar, inexatidão
das conversas alheias
Que pouco ou nada me interessam
Ando assim submersa, alma inversa
Teor cáustico gerando flores
Depurando amores e anseios
Meus desejos, minhas dores
Em busca da melhor definição do fim
Fim do começo ou começo de mim?
quinta-feira, 5 de dezembro de 2013
domingo, 1 de dezembro de 2013
Aniversário
Fazer anos pode ser catártico. Eu
sempre associei o meu aniversário ao começo do fim. Faço anos no final de
novembro, logo em seguida já começa dezembro e com ele a sensação de que o ano
está acabando. Sensação não, realidade. Aí bate um desespero, parece que mais
um ano se passou e nada mudou. Alguns sonhos engavetados, alguns dos projetos
da listinha do ano passado apenas iniciados (quando muito). Mais um
aniversário, mais uma vida que escorreu pelo ralo. E parece que tudo está
igual, somente um ano mais velho.
A catarse da vida se instala para
mim, com mais força, nessas datas. São inúmeras manifestações de gente que
gosta de mim (e que eu gosto igualmente) que aquecem o coração. A gente pensa
mesmo que a vida é de fato boa, que é feliz porque tanta gente gosta
sinceramente de nós, e isso, claro, não pode ser descartado. Mas ainda assim, a
cada ano acumula-se um vazio, e eu não sei explicar, tão pouco apontar
miudamente. Só sei que ele existe, e esse apelo natalino do meu aniversário, no
último dia do novembro indomado, dá a ele um peso ainda maior. É uma gangorra
que puxa para baixo, e ao mesmo tempo para cima, e para baixo, e para cima.
Para cada alto, há um baixo. Sem juízo de valor ou grau de importância, mas há
sempre os dois, se alternando. E não se refere a meu humor nem estabilidade
emocional, mas sim aos acontecimentos cotidianos. Aprendo tanto, e à medida que
isso acontece, a sensação de saber nada aumenta. É gradativo, contraditório e
quase filosófico. E as palavras gritam aqui dentro, querendo sair, ter asas
para voar, mas o despreparo da representante delas ainda as tolhe de partirem
rumo ao desconhecido. Então elas buscam espaço nas letras dos outros, e encontram
nessas letras quem escreva por mim. Momentos mágicos. Acalmam-me, por hora,
refrescam o coração, mas logo a busca incessante recomeça. E essa busca será
eterna enquanto eu viver! Porém a maturidade me fez perceber que só há vida
mesmo, de verdade, enquanto houver buscas. Elas são presentes, e não penas. Alimentos,
e não faltas.
Que eu não me acovarde diante das
buscas da vida. Que eu tenha sempre algo novo para buscar, e que o desconhecido
jamais me coloque medo, e sim fascínio. Que esse fascínio me impulsione a
querer mais e sempre mais, tanto quanto minha alma necessitar, e que me sobre
um bom tempo para dividir com quem precisar. Que as datas todas passem a marcar
começos, e não fins! Para todo o fim há um começo, então que fique a parte boa
dos dois. Que os fins me carreguem sempre para novos começos. E que a vida seja
sempre doce, mesmo quando o amargor saltar aos olhos...pois no fundo o que
importa mesmo é viver. Somos pássaros a semear novas flores...dentro de nós, e
dentro dos outros. E o tamanho do nosso jardim só depende de nós mesmos.
terça-feira, 26 de novembro de 2013
Ideal
Ideologicamente
Ideia lógica mente
Lógica mente ideia
Mente ideia lógica
Lógica ideia mente
Mente logicamente a lógica
Logicamente a lógica mente
Mente, lógico é lógica
Lógico, mente pra sempre
Idealmente
Ideal e mente
Ideal à frente
(Siga em frente)
Ideologicamente
Vanessa Zordan
sexta-feira, 25 de outubro de 2013
Inteiros
O que era mais virou menos
O que era menos virou demais
Exageros, friezas
Um em cada ponta
Na linha que aponta a intolerância
Teceu nulidades aos corações
E o meio termo ficou ali, esquecido
Desavisado de ser quem é
Ou de não ser, quando quer
Meios termos não são metades
Metade é o meio do caminho
A meia maçã, a meia do pé
Meio termo é consciência
Sensatez, saber ceder,
Aceitar o outro como ele é
Crer que ao final do caminho
O pote é de ouro, não de espinhos
E pra isso há de se ter fé
Na eterna busca de meios termos
Não quaisquer
Mas que tragam em si
A lucidez de ser o que a gente é
Inteira a mente.
Vanessa Zordan
Além do mais
Além mar, além céu
Além espirro e papel
Além chuva, além sol
Além peixe no anzol
Além morte, além vida
Além sina que escraviza
Além ofício, além minuta
Além morte por cicuta
Além livro, além filme
Além algo que sublime
Além roupa, além batom
Além malas, e até que é bom
Além mato, além rua
Além passos para a lua
Além gato, além lixo
Além jantar e uivo dos bichos
Além sapo, além coacho
Além de tudo o que eu não acho
Além sorte, além jogo
Além tudo que dá nojo
Além mistério, além segredo
Além tudo que mete medo
Além da noite, além do dia
Além das terras e cercanias
Além do certo e do errado
Além do ser e seu legado.
Além... muito além
É a lembrança que se traz
Como a esperança que se faz
Do além, que é sempre mais.
Vanessa Zordan
terça-feira, 8 de outubro de 2013
Caracol
Cabelo encaracolado
Pensamento em caracol
Sobe e desce, vai e vem
Vira a curva e faz um nó
Estica meio torto, assim de viés
Pra enrolar tudo de novo
E aí, feito um bobo
Ele ri de dar gosto
Chama a atenção dos outros
(que não entendem nada,
nem podem mesmo entender!)
As ideias desse menino
Fazem caracol no tempo.
terça-feira, 10 de setembro de 2013
Muros
Casas com suas paredes altas
E seus muros altos
E os muros dos vizinhos
Também altos
Escondem a lua
Atrapalham nossas vistas
Impedem que a lua
A olhos nus seja vista
É necessário ir à frente da casa
Esquecer as grades
Que acompanham nossos próprios muros altos
Esquecer qualquer condição feérica
É necessário ir à frente
E despir-se da lente
Que embaça os olhos, infectada
E ainda assim não se sente.
Há impossibilidade de ver a lua
É preciso ver a lua, somente.
quinta-feira, 15 de agosto de 2013
Ainda assim, revisei
Hoje eu quero chorar. É uma certa
impotência que me faz ficar assim, com vontade de verter todos os sentimentos e
toda minha energia vital em lágrimas. Poemas esqueci-me de escrever, não tenho
ânimo. É algo mais simples, que não necessita de construções elaboradas nem
cuidados com sobrar ou faltar algo. Hoje eu não quero sintaxe, quero só a
palavra certa, algo que me tire essa irritação, que me faça ser melhor do que
sou sem depender de ações dos outros, sem as palavras de sempre em meu texto,
que transparecem minha profissão. Sem querer revisar, com a preocupação de ser
visto por outras pessoas. O barulho externo não me permite ler no momento,
então quero escrever...escrever...escrever...pra ver se nessas palavras
encontro respostas, mesmo que em cacofonia, mesmo que desagradáveis ao ouvido
e/ou a alma. Esta está machucada, buscando sua identidade. Não se vitimiza, há
muito já saiu desse lugar. Mas busca entender porquês. Porquês pesam, podem
significar tudo, e ao mesmo tempo valer para nada. Hoje excepcionalmente tenho
vontade de chorar. Sei e tenho consciência de que quem pode promover mudanças e
a nossa própria felicidade somos única e exclusivamente nós mesmos. Somos os
únicos responsáveis por isso, e talvez seja exatamente essa consciência que
pese. Pesa porque não se desenrolam os nós, como um passe de mágica.
Desenrolar nós é como arrancar pele a sangue frio, sem anestesia. É doloroso! E
quem é que tem coragem de mexer nesse vespeiro? Quem é honesto em dizer que tem
ou teve desde sempre essa coragem? Quem é capaz de, a essa altura dos
acontecimentos, ter essa coragem em um dia de sol, numa manhã qualquer, acordar
cedo e, como que por um encanto, decidir-se a mexer no vespeiro, ir lá e
fazê-lo?? Quem?? Qual é a forma ou motivos pelos quais tomamos a decisão de
empurrar nossa mão goela abaixo e remexer lá dentro, bem fundo...desafiar
fantasmas, e promover enfrentamentos para ouvir de si e dizer a si mesmo tudo o
que quer, para libertar-se desse casulo e voar? Que vôo é esse para o qual é
tão difícil decolar? Por que a angústia fica tanto a martelar? E mais uma vez a
resposta vem clara e definitiva: É você mesmo, meu caro (a). Somos sempre nós mesmos os
responsáveis: pela culpa, pelo erro, pela mudança (sobretudo por ela), pelos
medos...somos nós, sempre nós que desatamos esses nós. E que bom...assim é ou
deveria ser mais fácil. E a gente vai vivendo e esquecendo de varrer esses
fantasmas, de matar um por dia. Somos humanos e acho que deve ser normal, não é
à toa que estamos aqui novamente. Mas nem era sobre isso que eu queria
escrever, era sobre o que eu não consigo, apesar de toda a minha habilidade,
expressar com palavras, pois é algo que vive aqui dentro, pregado, indissolúvel,
invisível. Posso estar exatamente às portas do vespeiro. Preciso aprender a
enfiar a mão.
Vanessa Zordan
A roupa
A roupa ainda tem seu cheiro
Não quero lavar
A boca ainda sente seu beijo
Não quero esquecer
A memória ainda tem seu sorriso
Não quero apagar
O corpo ainda sente seu gosto
Não quero arrancar
Os dias ainda têm sua presença
Não quero que suma
E a noite ainda chora sua ausência
Sem receita nem cura
O domingo ainda vive esse tédio
Não há você aqui
E a semana se arrasta sem remédio
Não há como fugir
Os meses resumem-se a lembrar
Não vejo seu rosto de perto
O bimestre sufoca em não acabar
O mundo em meus olhos agora é deserto
As estações insistem em reviver
Não há mais seu ser em meu ser
O ano insiste em findar
Custando a me convencer
O inverno de novo acinzenta
E eu continuo aqui
Nem a primavera entre flores sustenta
O que deixou de existir.
Já que a roupa...ainda tem seu cheiro.
Vanessa Zordan
quarta-feira, 24 de julho de 2013
Esperas
Na verdade, eu queria fazer
beijinho de colher para você todos os dias. Não, todos os dias não, todas as
semanas, senão viraríamos dois bujões. Ou melhor, eu queria fazer beijinho de
colher para você toda vez que desse muita vontade, que é para não ficar
enjoativo. Compartilharíamos do mesmo recipiente, cada um com sua colher, e
quando menos esperássemos compartilharíamos também a colher, embaixo dos
cobertores de uma noite fria, assistindo a um filme qualquer.
Na verdade, eu queria que minha
vida ao seu lado não fosse enjoativa. Que tivesse o frescor de um beijinho de
colher feito de vez em quando, e surpresas diárias, mesmo que as novidades
fossem poucas. Qualquer história sua seria uma novidade, e me faria ter a
certeza de que acertei em cheio no dia em que te vi e pensei mesmo que passaria
a vida toda com você, nos seus olhos, no seu abraço, que me envolveria sempre
que eu achasse que a vida era pesada demais. Eu também te abraçaria, e te faria
esquecer seus medos, suas angústias e incertezas.
Na verdade, eu queria entrar na
sua vida como vento súbito, arrebatador e inesquecível. E permanecer nela como
brisa leve. E te ensinar que viver vale à pena, e aprender com você um quer que
seja de novo do seu dia-a-dia, da sua profissão, e ficar boquiaberta pensando
que nunca imaginaria que era assim, não fosse você para me esclarecer
miudamente essa questão, esse ponto de vista, essa vida toda sem saber o que era
o amor, o que era sentir uma vontade enlouquecedora de estar perto, de conversar,
de saber mais.
Na verdade, eu queria sentir essa
febre, esse quebranto, o encanto do novo, que despertaria meus sentidos e me arderia
por dentro. Algo quase adolescente, e ao mesmo tempo tão adulto, e ao mesmo
tempo tão certo, e sério, e vivo, e necessário, que não dá para acreditar que
nossas vidas ainda correm separadas uma da outra.
Na verdade, vivo de esperas...
segunda-feira, 22 de julho de 2013
Embriaguez
Semana que vem
Não sei se vem
E por que vem
Nem se viria
Semanas assim
Não sei se são
Ou se seriam
Semanas em vão
Não sei se hão
Ou não hão de ser
Semanas para ver
Tudo de novo acontecer
O que se há de viver
Em suas devidas penas
Semanas a fio
Assusta-me o vazio
E eu sinto frio
Num calor de rachar
Semanas sem par
Ou de par em par
Na mesa de um bar
Vendo a vida passar.
Vanessa Zordan
quinta-feira, 13 de junho de 2013
Quando?
Quando é que você vem
Para ficar comigo
Para ficar mais tempo
Aqui, do lado de dentro
Sem o desalento
Do tempo que corre
E pelos dedos escorre
Das mãos dadas e cúmplices
Meu bem...
Demorado há de ser
O dia em que você vier
Para ficar comigo
Para ficar mais tempo
Do lado de dentro
Demorado será
Quando é que você vem
Para tocar de leve
Para estancar o sangue
Para curar a febre
Ou incendiá-la de vez
Quando é que você vem
Para ficar comigo
Quando é que você vem
Para ficar mais tempo
Quando é que você vem
Para ficar
Quando?
Vanessa Zordan
domingo, 9 de junho de 2013
terça-feira, 23 de abril de 2013
Frio
Adormecer
Para a dor me ser
Ilusão momentânea
E amanhecer
Na manha da manhã
Criança pura
Incólume outra vez
Mas hoje é frio.
Vanessa Zordan
segunda-feira, 15 de abril de 2013
Confissão
Confesso minha saudade
E você sua iniquidade
Com quantos silêncios
Se faz uma solidão?
Vanessa Zordan
segunda-feira, 8 de abril de 2013
De novo
Quero você
Rumo ao novo
De novo
E outra vez
E novamente
Pois a nova mente
Não mente amor
Nem dor...
Viciada ao sabor
De algo que surpreende
O novo
E que eu quero muito
E de novo
E de novo
E de novo.
Vanessa Zordan
Rumo ao novo
De novo
E outra vez
E novamente
Pois a nova mente
Não mente amor
Nem dor...
Viciada ao sabor
De algo que surpreende
O novo
E que eu quero muito
E de novo
E de novo
E de novo.
Vanessa Zordan
sexta-feira, 29 de março de 2013
Sarau
Hoje é dia de sarau
Sarar, sarei
Hoje é dia de sarau
Sarou, saramos
Hoje é dia de sarau
Sarar a dor
Que toda dor
É dor que sara
Toda vez que se para
Para injetar amor
Veia, seringa e antídoto
Para o mau humor
É o remédio da arte
Que invade toda parte
E sara a dor.
Vanessa Zordan
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