quarta-feira, 13 de março de 2019


Cavalo Marinho

Não me prenda ao mar
Não sou tesouro naufragado
Não me solte demais
Queda livre também mata passarinho
Sou cavalo marinho
Livre no oceano, mas cercada dele.


Vanessa Zordan

Minicontos

#casadasletraspenapolis


I
No fim de semana ela viu o amor se dissolvendo. Era o último beijo, só ele não sabia ainda.

II
Vendo um amor que não vingou, ou troco por uma TV com Netflix. Parcelo em 3 esperanças, se preciso for.

III
Na encruzilhada entre um caminho e outro, ela resolveu ficar. Não queria outro “quase”.


Vanessa Zordan

segunda-feira, 11 de março de 2019

Um café

Venha cá, meu amor
Não desista de mim
É uma questão de fé
Te faço um café.
Um dia a mais para
Uma saudade a menos
Do que ainda não vivemos

Vanessa Zordan
Bandeira

Você deu bandeira, amor
Quando me viu entrando na Avenida
Seus olhos nus me disseram que sim
Que eu sou o amor da sua vida
Não adianta querer disfarçar.

Deixe o orgulho de lado, meu bem
A avenida precisa de nós
Quando passarem tantos carros a sós
Sem um grande amor que os impulsione

Não adianta dizer que não
Eu vi nos seus olhos e eles não mentem
Não para mim.
Eu vi tudo o que você tenta esconder

Você pode até tentar me esquecer
Só tentar
Mas na sua vida eu sei que vou ficar
Eternamente qual você na minha
Você deu bandeira, amor!

Vanessa Zordan


Ele é


Ele é TEA. Ele é. Não sei se é ou se tem TEA. De tudo que já li e estudei, ainda não sei definir. Mas pouco importa, ele é. Ele tem. Ele é TEA 

TEA: Transtorno do Espectro Autista. 
Hoje finalmente soube que ele é de fato. 
A suspeita acabou, e caiu sobre nossas cabeças a verdade do diagnóstico. 
É fato, meu filho é autista.
Ele é.
Ele é meu filho amado, meu grande amor, aquele presente que Deus me deu para me ensinar a refinar meu olhar para a vida, para as conquistas diárias e para a valorização de um simples abraço
Ele é aquele que me ajudou a definir meu propósito de vida
Ele é quem vai me ensinar a traçar metas e atingi-las sem esmorecer, pelo objetivo maior de vê-lo bem e o mais feliz possível
Ele é o menino que me fez conhecer pessoas incríveis pela suspeita de ele ser TEA, e que me fez receber generosidade e ser generosa com outras mães, troca multívoca e aquecedora de corações
Ele é quem me ensina a tocar o coração do outro, a impactar a vida de alguém
Ele é quem faz de um simples passeio uma oportunidade para as mais incríveis estratégias
Ele é capaz de unir muita gente em torno desse amor que ele desperta
Ele é música, som e movimento
Ele é cor, riso e alegria
Ele é temperamento forte e opiniões próprias. É teimosia 
Ele é de um pensar coisas que eu jamais pensaria
Ele é arteiro, amoroso, carinhoso
Ele é perfeito, inteligente e sagaz
Ele é tudo isso e muito mais
Ele é...
Ele é TEA
É meu anjo azul
É minha gratidão e amor e medo e desespero e força que não sei de onde vem para ser uma mãe especial, de um filho tão incrível, confiado a mim, e que me escolheu. 
Ele é único. Não por ser TEA, mas por ser ele, e por ser eu, e por estarmos aqui um para o outro e esse amor se multiplicar a cada dia. 
Ele é...agora eu sei
Ele é...eu sempre soube
Obrigada, meu Deus! 

Vanessa Zordan

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

Vida 


O céu está lindo hoje!
Que ele amanse os dias
Neste verão quente
Que as coisas fluam 
E façam sua própria rota
Que a vida seja mais do que existir somente...

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Oração para Pedro (sobre o que realmente importa)



Não sei mais pensar minha vida antes de você. Parece até que ela nunca existiu. Foi preparação para o agora. O melhor é agora. O agora e o que virá. No passado ficaram algumas saudades, outros esquecimentos menores sobre o que eu achava que era importante. Coisas ou pessoas que eu pensava que fariam falta. E agora, velando seu sono fora de hora e ansiando seu olhar para encerrar o dia, vejo que nos bastamos. 
Os meus dias de sol são mais bonitos, os chuvosos menos tristes e melancólicos depois que você chegou. O dia é sempre uma descoberta. A noite é sempre um aconchego. A semana é sempre a espera pelo fim do dia. A saída do trabalho é sempre ao seu encontro, feliz feito criança. Os finais de semana são sempre nossos. Para a preguiça ou para a agitação, nossas mãos estão dadas. Meu apoio é para os seus passos, para as suas brincadeiras. Brinco também, rio, canto. Desespero-me às vezes, pelas coisas que parecem não ter solução. A solução é o amor. Nosso amor é sempre sublinhado. Em nome dele percebo que tudo tem jeito. Que há coisas que não acabam, apenas se modificam. Outras que acabam sim (ufa!), mas recomeçam, revivem, revigoram-se. E outras que nascem, pois há sempre algo a nascer. 

No seu olhar vejo a semente para o novo. A força para as mudanças. A graça das oportunidades. No seu sorriso paira a eternidade. Eternizo-me na semente que soube plantar e agradeço a Deus pela oportunidade não premeditada de fazê-lo. 

Que Deus abençoe você. Você será todo o meu melhor. Filhos são como os pais, só que melhorados. Que eu saiba melhorar você mais e mais, se é que isso é possível. Porque sempre foi você. Exatamente você. Outro não caberia. Mesmo antes de conhecer você, eu já o conhecia. Meu amor a cada dia cresce. Como seus pés crescem e já não temos sapatos. Como suas pernas crescem e já não lhe cabem as calças. Como os braços descobertos pela blusa que não serve mais. Por todas as roupas que irão vestir outras crianças, pois você cresceu. Por toda gratidão, por todos os abraços que damos e recebemos das pessoas. Abraçamo-nos, e assim nos renovamos. Assim nos amamos. Tudo é uma grande expansão. Que nosso território sempre se renove, como o céu e suas estrelas. Amplitude.

Vanessa Zordan

terça-feira, 21 de junho de 2016

Novos parágrafos

  • Hoje estou cansada. Cansei de competir comigo mesma e perder. Cansei de querer chegar à frente de mim mesma. Compito sozinha. Computo minhas dores, meus amores, corro atrás de um tempo que já passou, de um tempo que não tenho mais, e de um tempo que virá. Por isso ando exausta. Por querer definir o indefinível. Preciso despregar-me do desnecessário de saber as respostas para o que não consigo sequer definir as perguntas. Preciso de outros horizontes. A água que molha a terra um dia volta para a nuvem, e para isso se condensa, se renova para aparecer fresca e cheirosa. É disso que preciso agora, desse frescor renovado. Renovação. Renovar a ação e deixar que ela cuide do que é velho em minha vida. O velho em nossas vidas é todo aquele ou aquilo que ficou. Que não permitimos partir. Que não permitiram que nos deixasse. Não quero renegar o velho, ao contrário. Quero voltar à casa de tudo que é velho com vaso em mãos de flor que cultivei em meu próprio jardim. Quero continuar amando, mesmo que doa. Mesmo que às vezes precise dar a outra face à surra. Amor não envelhece, o que envelhece são algumas formas de amar. Mesmo que velho o amor o é, e por ser amor, há sempre que se agradecer. Por poder amar, há sempre a dádiva da vida. Pela dádiva da vida há sempre gratidão. Pela gratidão, há sempre o peito aquecido. Pelo peito aquecido, há sempre um sorriso no rosto. Pelo sorriso no rosto há sempre a leveza que procuro. Mesmo exausta, não me canso de amar, dessa bagunça organizada que inventei, que não deixo ir, que não deixam que vá... a vida é tão curta. A vida é rara. A vida passa. Eu tenho ficado. Espero e tenho esperança no amor que tenho e, sobretudo, no amor que posso ter...mas hoje estou cansada. Hoje começo novos parágrafos em meus textos... 


  • Vanessa Zordan


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Calendário


Inverno, fim de tarde
O carrinho não lhe cabe nas mãos 
Quer segurá-lo, mas facilmente vai ao chão
Há tanta beleza nas suas tentativas frustradas
Nos seus surtos de teimosia insistente
Que mal vejo o tempo que passa
E quando me dou conta chega a primavera
Enche de cores a nossa janela
E as suas investidas para novas descobertas

Já é verão e descubro que há tempos
Suas mãos com o carrinho já tiveram êxito
E por hora se ocupam de outro brinquedo
E mais outro, e depois se movem pelos cantos da casa
A buscar brinquedos em forma de objetos proibidos
Oriento cheia de um amor que nunca imaginei sentir
Proponho novas brincadeiras, outros obstáculos.

É fim de tarde outra vez...
Abro um calendário que parece nunca ter existido
Tão rápido foi desfolhado pelo outono do tempo
Meu menino cresce.

Vanessa Zordan

domingo, 9 de novembro de 2014

Singular


Meu bem
Logo você vem
Logo você chega
Você já está
Vem para ficar,
E volta para ver
O que eu não sei enxergar
Vem para me ensinar a dizer
O que eu não sei dizer
E fazer, e sentir, e me dar
Vem para ser
O que já é, já foi e sempre será
Vem para me eternizar 
Na conjugação de amar
É você meu verbo
É singular.

Vanessa Zordan


segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Estrada

Não, não é por ti
É por mim
E pelas escolhas que faço
Mas que enfeitas a estrada
Isso é fato.


sábado, 7 de junho de 2014

Resíduo



À Carla Tocchet (formadora do programa Ler e Escrever)

Não bastasse a audácia de se despedir, ela ainda usa o “meu” poeta preferido, junto com um dos seus (dele) poemas mais lindos e “meu” preferido como sendo ambos “seus” preferidos. Ela deixou com isso um buraco aqui dentro. Na verdade, ela deixou um buraco aqui dentro com a audácia de se despedir. Audácia é pouco, é eufemismo.  Mesmo que eu não estivesse mais...mesmo que eu já tivesse saído de cena, deixado o barco, um dos meus pés ainda estava na proa. Minha eterna proa, meu eterno barco do qual ela era uma das comandantes. Um dos meus grandes modelos.  Estive nesse barco por 6 anos, e o mar que naveguei com ela foi imensurável de se calcular...milhas e milhas de tempestades e pores de sol. Ajudou-me a ficar firme quando a única saída que me parecia mais plausível era desistir. Então eu recebia a dose mensal dos ensinamentos dela, desse feitiço que ela tem e que traz à tona a percepção de como proceder, de que é possível vencer os obstáculos na educação e de que não é tão penoso assim. Ou de que sim, é penoso, porém ela me abria as portas de um mundo novo, cheio de possibilidades para quem acredita, tem vontade e amor pelo que faz.
Por vezes ganhei seu jeito de fazer as coisas, suas expressões, “bacanisses”, neologismos que impregnaram – “De onde essa Carla tira essas coisas?” – e fizeram parte mim...na verdade, fazem parte de mim. Nunca deixarão de fazer parte de mim, da profissional que estou me tornando a cada dia, e de todos que tiveram o privilégio de viajar nesse barco.
Mas ela teve a audácia de se despedir... sabemos que não é um “adeus”, e sim um “até logo”. Sabemos também que o que ficou dela em cada um de nós será sempre ampliado, pois um formador de verdade é aquele que deixa seus pupilos em condição para caminhar sozinhos e de forma crítica. Ficaremos aqui, sem enxergá-la com os olhos, mas tendo a certeza de que seu brilho continua em nós, através dos conhecimentos que construímos juntas, e que fazemos questão de espalhar feito vento por aí.
As pessoas se eternizam pela intensidade com que se doam. O resíduo dela em nós já é eterno.

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Chove



Eu vim mesmo para te dizer
Que a previsão do tempo diz que não chove
Mas ainda que eu ignore
Há chuva em mim
Sai o sol e fim
Sai o arco íris, enfim
O céu se abre, por fim
Mas a chuva não cessa
Chove, e eu tenho pressa
É certo que a previsão errou
Porém não me distraio  
Simplesmente vou

Estou sempre pronta!
E, se não estiver, sou.    

Vanessa Zordan
                    

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Do sentimentalismo




Dó de tudo e de todos
E foi tanta pena
Que galinhas voaram.

Vanessa Zordan

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Eu tinha um poema escrito



Eu tinha um poema escrito
Em um caderninho
Mas agora não sei onde está

Não, não era o caderno vermelho
Era um caderninho menor
Em espiral
Onde marquei algumas aspirações
Em forma de versos
Para ficar mais bonito
Mas agora não sei onde está

E esse vazio estranho há de ser preenchido
A poesia sempre encontra espaços para preencher
Sem que ninguém autorize, ela vive em nós

Meu caderninho não sei onde está
Mas há de aparecer
Senão invento outra vez, escrevo onde for
Não importa

Pois é perdendo e achando
Que a vida se faz
Toda flor que nasce
Um dia volta a ser semente

Vanessa Zordan





sábado, 22 de fevereiro de 2014

Em tempos de Facebook




Publiquei mas não marquei
De fato, foi melhor assim
Enganei-me que marquei para você
Mas na verdade só você marcou em mim.

E sendo assim
Exclui-se e... fim.

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Sopro



Seu nome em minha boca
Exercício diário
Lembrar a sua mágica aparição
Bem e mal necessários.
Foi assim por algum tempo
Mas e hoje?

Hoje me cansei
Hoje seu nome se cansou da minha boca
Hoje minha boca despregou-se do seu nome
Hoje há cãibra nas mãos
Pela lição de casa mal dada
“Repita cem vezes no caderno de pauta,
mas do jeito certo.”
E repetir cem vezes, e continuar errando
Qual é o certo, afinal?

Cansei rápido dessa vez
Será definitivo?
Apagou-se de todo este fogo
Aos poucos sucumbido?
Ou um sopro seu o reacenderia?

Nesse caso, a boca que se cansa
É só a minha.

Vanessa Zordan

domingo, 26 de janeiro de 2014

Pergunta que não quer calar




Fone de ouvido:

Compaixão ou egoísmo?

Vanessa Zordan 

sábado, 11 de janeiro de 2014

Sinal fechado

Precisava correr
Mas o sinal foi mais rápido
Fechou e ela ficou
Por um momento contestou sua pressa
E a dividiu comigo
Era a preço que pagava por aproveitar demais, disse
Um passeio, um cardápio, um grande amor, não sei
Só sei que ela atravessou antes que o sinal reabrisse
Suas cores na Av. Paulista as fizeram uma só
Quem sabe chamava-se Paula?
Estava aprendendo a avançar sinais
Era só mais um

E por hoje bastava.

Vanessa  Zordan

domingo, 22 de dezembro de 2013

Mais de trinta



Mais de trinta anos vividos
Sem me conhecer direito
Havia uma blindagem opaca
Fazendo hora em meu peito

E foi assim desse jeito
Que uma luz foi entrando
Desmanchou gradualmente o feito
Aumentou o quebranto

Mais de trinta anos perdidos
Será fim ou recomeço
Desespero-me ou faço festa
Pelas horas que gastei
Sem estar de fato em mim?

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Depuração



Ando tão submersa em mim mesma
Abafo o cheiro das memórias
Para que não sejam detectadas à minha presença
Ou a olhos nus, por qualquer um
(São meus segredos)

Em ausências me encontro comigo
E com fantasmas, alegrias e tristezas

Ando tão submersa em minha memória
Estado suspenso no ar, inexatidão das conversas alheias
Que pouco ou nada me interessam

Ando assim submersa, alma inversa
Teor cáustico gerando flores
Depurando amores e anseios
Meus desejos, minhas dores
Em busca da melhor definição do fim

Fim do começo ou começo de mim?


quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Declaração





Todos os meus poemas de amor
Escrevi para ti
Só não te conhecia ainda. 

Vanessa Zordan

domingo, 1 de dezembro de 2013

Aniversário




Fazer anos pode ser catártico. Eu sempre associei o meu aniversário ao começo do fim. Faço anos no final de novembro, logo em seguida já começa dezembro e com ele a sensação de que o ano está acabando. Sensação não, realidade. Aí bate um desespero, parece que mais um ano se passou e nada mudou. Alguns sonhos engavetados, alguns dos projetos da listinha do ano passado apenas iniciados (quando muito). Mais um aniversário, mais uma vida que escorreu pelo ralo. E parece que tudo está igual, somente um ano mais velho.
A catarse da vida se instala para mim, com mais força, nessas datas. São inúmeras manifestações de gente que gosta de mim (e que eu gosto igualmente) que aquecem o coração. A gente pensa mesmo que a vida é de fato boa, que é feliz porque tanta gente gosta sinceramente de nós, e isso, claro, não pode ser descartado. Mas ainda assim, a cada ano acumula-se um vazio, e eu não sei explicar, tão pouco apontar miudamente. Só sei que ele existe, e esse apelo natalino do meu aniversário, no último dia do novembro indomado, dá a ele um peso ainda maior. É uma gangorra que puxa para baixo, e ao mesmo tempo para cima, e para baixo, e para cima. Para cada alto, há um baixo. Sem juízo de valor ou grau de importância, mas há sempre os dois, se alternando. E não se refere a meu humor nem estabilidade emocional, mas sim aos acontecimentos cotidianos. Aprendo tanto, e à medida que isso acontece, a sensação de saber nada aumenta. É gradativo, contraditório e quase filosófico. E as palavras gritam aqui dentro, querendo sair, ter asas para voar, mas o despreparo da representante delas ainda as tolhe de partirem rumo ao desconhecido. Então elas buscam espaço nas letras dos outros, e encontram nessas letras quem escreva por mim. Momentos mágicos. Acalmam-me, por hora, refrescam o coração, mas logo a busca incessante recomeça. E essa busca será eterna enquanto eu viver! Porém a maturidade me fez perceber que só há vida mesmo, de verdade, enquanto houver buscas. Elas são presentes, e não penas. Alimentos, e não faltas. 
Que eu não me acovarde diante das buscas da vida. Que eu tenha sempre algo novo para buscar, e que o desconhecido jamais me coloque medo, e sim fascínio. Que esse fascínio me impulsione a querer mais e sempre mais, tanto quanto minha alma necessitar, e que me sobre um bom tempo para dividir com quem precisar. Que as datas todas passem a marcar começos, e não fins! Para todo o fim há um começo, então que fique a parte boa dos dois. Que os fins me carreguem sempre para novos começos. E que a vida seja sempre doce, mesmo quando o amargor saltar aos olhos...pois no fundo o que importa mesmo é viver. Somos pássaros a semear novas flores...dentro de nós, e dentro dos outros. E o tamanho do nosso jardim só depende de nós mesmos.

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Ideal




Ideologicamente
Ideia lógica mente
Lógica mente ideia
Mente ideia lógica
Lógica ideia mente
Mente logicamente a lógica
Logicamente a lógica mente
Mente, lógico é lógica
Lógico, mente pra sempre
Idealmente
Ideal e mente
Ideal à frente
(Siga em frente)
Ideologicamente  

Vanessa Zordan

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Inteiros



O que era mais virou menos
O que era menos virou demais
Exageros, friezas
Um em cada ponta
Na linha que aponta a intolerância
Teceu nulidades aos corações

E o meio termo ficou ali, esquecido
Desavisado de ser quem é
Ou de não ser, quando quer

Meios termos não são metades
Metade é o meio do caminho
A meia maçã, a meia do pé
Meio termo é consciência
Sensatez, saber ceder,
Aceitar o outro como ele é

Crer que ao final do caminho
O pote é de ouro, não de espinhos
E pra isso há de se ter fé
Na eterna busca de meios termos
Não quaisquer
Mas que tragam em si
A lucidez de ser o que a gente é
Inteira a mente.

Vanessa Zordan

Além do mais




Além mar, além céu
Além espirro e papel

Além chuva, além sol
Além peixe no anzol

Além morte, além vida
Além sina que escraviza

Além ofício, além minuta
Além morte por cicuta

Além livro, além filme
Além algo que sublime

Além roupa, além batom
Além malas, e até que é bom

Além mato, além rua
Além passos para a lua

Além gato, além lixo
Além jantar e uivo dos bichos

Além sapo, além coacho
Além de tudo o que eu não acho

Além sorte, além jogo
Além tudo que dá nojo

Além mistério, além segredo
Além tudo que mete medo

Além da noite, além do dia
Além das terras e cercanias

Além do certo e do errado
Além do ser e seu legado.

Além... muito além
É a lembrança que se traz
Como a esperança que se faz
Do além, que é sempre mais.

Vanessa Zordan

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Caracol




Cabelo encaracolado
Pensamento em caracol
Sobe e desce, vai e vem
Vira a curva e faz um nó
Estica meio torto, assim de viés
Pra enrolar tudo de novo
E aí, feito um bobo
Ele ri de dar gosto
Chama a atenção dos outros
(que não entendem nada,
nem podem mesmo entender!)

As ideias desse menino
Fazem caracol no tempo.


terça-feira, 10 de setembro de 2013

Muros



Casas com suas paredes altas
E seus muros altos
E os muros dos vizinhos
Também altos
Escondem a lua
Atrapalham nossas vistas
Impedem que a lua
A olhos nus seja vista

É necessário ir à frente da casa
Esquecer as grades
Que acompanham nossos próprios muros altos
Esquecer qualquer condição feérica
É necessário ir à frente
E despir-se da lente
Que embaça os olhos, infectada
E ainda assim não se sente.

Há impossibilidade de ver a lua
É preciso ver a lua, somente. 


VIII- Das oportunidades


Nas entrelinhas
O homem caminha
Sobre a tênue linha
E vira a página

VII- Do oportunismo


Chorou com o cortejo
Aproveitou o ensejo
Jogou-se no Tejo

Vanessa Zordan

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

III- Da precaução

Recolha as farpas
Mas por precaução
Abra as aspas

Vanessa Zordan

Ainda assim, revisei



Hoje eu quero chorar. É uma certa impotência que me faz ficar assim, com vontade de verter todos os sentimentos e toda minha energia vital em lágrimas. Poemas esqueci-me de escrever, não tenho ânimo. É algo mais simples, que não necessita de construções elaboradas nem cuidados com sobrar ou faltar algo. Hoje eu não quero sintaxe, quero só a palavra certa, algo que me tire essa irritação, que me faça ser melhor do que sou sem depender de ações dos outros, sem as palavras de sempre em meu texto, que transparecem minha profissão. Sem querer revisar, com a preocupação de ser visto por outras pessoas. O barulho externo não me permite ler no momento, então quero escrever...escrever...escrever...pra ver se nessas palavras encontro respostas, mesmo que em cacofonia, mesmo que desagradáveis ao ouvido e/ou a alma. Esta está machucada, buscando sua identidade. Não se vitimiza, há muito já saiu desse lugar. Mas busca entender porquês. Porquês pesam, podem significar tudo, e ao mesmo tempo valer para nada. Hoje excepcionalmente tenho vontade de chorar. Sei e tenho consciência de que quem pode promover mudanças e a nossa própria felicidade somos única e exclusivamente nós mesmos. Somos os únicos responsáveis por isso, e talvez seja exatamente essa consciência que pese. Pesa porque não se desenrolam os nós, como um passe de mágica. Desenrolar nós é como arrancar pele a sangue frio, sem anestesia. É doloroso! E quem é que tem coragem de mexer nesse vespeiro? Quem é honesto em dizer que tem ou teve desde sempre essa coragem? Quem é capaz de, a essa altura dos acontecimentos, ter essa coragem em um dia de sol, numa manhã qualquer, acordar cedo e, como que por um encanto, decidir-se a mexer no vespeiro, ir lá e fazê-lo?? Quem?? Qual é a forma ou motivos pelos quais tomamos a decisão de empurrar nossa mão goela abaixo e remexer lá dentro, bem fundo...desafiar fantasmas, e promover enfrentamentos para ouvir de si e dizer a si mesmo tudo o que quer, para libertar-se desse casulo e voar? Que vôo é esse para o qual é tão difícil decolar? Por que a angústia fica tanto a martelar? E mais uma vez a resposta vem clara e definitiva: É você mesmo,  meu caro (a). Somos sempre nós mesmos os responsáveis: pela culpa, pelo erro, pela mudança (sobretudo por ela), pelos medos...somos nós, sempre nós que desatamos esses nós. E que bom...assim é ou deveria ser mais fácil. E a gente vai vivendo e esquecendo de varrer esses fantasmas, de matar um por dia. Somos humanos e acho que deve ser normal, não é à toa que estamos aqui novamente. Mas nem era sobre isso que eu queria escrever, era sobre o que eu não consigo, apesar de toda a minha habilidade, expressar com palavras, pois é algo que vive aqui dentro, pregado, indissolúvel, invisível. Posso estar exatamente às portas do vespeiro. Preciso aprender a enfiar a mão.  

Vanessa Zordan


A roupa



A roupa ainda tem seu cheiro
Não quero lavar
A boca ainda sente seu beijo
Não quero esquecer

A memória ainda tem seu sorriso
Não quero apagar
O corpo ainda sente seu gosto
Não quero arrancar

Os dias ainda têm sua presença
Não quero que suma
E a noite ainda chora sua ausência
Sem receita nem cura

O domingo ainda vive esse tédio
Não há você aqui
E a semana se arrasta sem remédio
Não há como fugir

Os meses resumem-se a lembrar
Não vejo seu rosto de perto      
O bimestre sufoca em não acabar
O mundo em meus olhos agora é deserto

As estações insistem em reviver
Não há mais seu ser em meu ser
O ano insiste em findar
Custando a me convencer

O inverno de novo acinzenta
E eu continuo aqui
Nem a primavera entre flores sustenta
O que deixou de existir.

Já que a roupa...ainda tem seu cheiro.

Vanessa Zordan

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Esperas



Na verdade, eu queria fazer beijinho de colher para você todos os dias. Não, todos os dias não, todas as semanas, senão viraríamos dois bujões. Ou melhor, eu queria fazer beijinho de colher para você toda vez que desse muita vontade, que é para não ficar enjoativo. Compartilharíamos do mesmo recipiente, cada um com sua colher, e quando menos esperássemos compartilharíamos também a colher, embaixo dos cobertores de uma noite fria, assistindo a um filme qualquer.
Na verdade, eu queria que minha vida ao seu lado não fosse enjoativa. Que tivesse o frescor de um beijinho de colher feito de vez em quando, e surpresas diárias, mesmo que as novidades fossem poucas. Qualquer história sua seria uma novidade, e me faria ter a certeza de que acertei em cheio no dia em que te vi e pensei mesmo que passaria a vida toda com você, nos seus olhos, no seu abraço, que me envolveria sempre que eu achasse que a vida era pesada demais. Eu também te abraçaria, e te faria esquecer seus medos, suas angústias e incertezas.
Na verdade, eu queria entrar na sua vida como vento súbito, arrebatador e inesquecível. E permanecer nela como brisa leve. E te ensinar que viver vale à pena, e aprender com você um quer que seja de novo do seu dia-a-dia, da sua profissão, e ficar boquiaberta pensando que nunca imaginaria que era assim, não fosse você para me esclarecer miudamente essa questão, esse ponto de vista, essa vida toda sem saber o que era o amor, o que era sentir uma vontade enlouquecedora de estar perto, de conversar, de saber mais.
Na verdade, eu queria sentir essa febre, esse quebranto, o encanto do novo, que despertaria meus sentidos e me arderia por dentro. Algo quase adolescente, e ao mesmo tempo tão adulto, e ao mesmo tempo tão certo, e sério, e vivo, e necessário, que não dá para acreditar que nossas vidas ainda correm separadas uma da outra. 
Na verdade, vivo de esperas...