Vanessa Zordan
domingo, 13 de fevereiro de 2011
Inconstante
Vanessa Zordan
Definição
Reflexões de viagem
domingo, 16 de janeiro de 2011
Só de Sacanagem - Elisa Lucinda
Meu coração está aos pulos!
Quantas vezes minha esperança será posta à prova?
Por quantas provas terá ela que passar? Tudo isso que está aí no ar, malas, cuecas que voam entupidas de dinheiro, do meu, do nosso dinheiro que reservamos duramente para educar os meninos mais pobres que nós, para cuidar gratuitamente da saúde deles e dos seus pais, esse dinheiro viaja na bagagem da impunidade e eu não posso mais.
Quantas vezes, meu amigo, meu rapaz, minha confiança vai ser posta à prova?
Quantas vezes minha esperança vai esperar no cais?
É certo que tempos difíceis existem para aperfeiçoar o aprendiz, mas não é certo que a mentira dos maus brasileiros venha quebrar no nosso nariz.
Meu coração está no escuro, a luz é simples, regada ao conselho simples de meu pai, minha mãe, minha avó e os justos que os precederam: "Não roubarás", "Devolva o lápis do coleguinha", "Esse apontador não é seu, minha filhinha". Ao invés disso, tanta coisa nojenta e torpe tenho tido que escutar.
Até habeas corpus preventivo, coisa da qual nunca tinha visto falar e sobre a qual minha pobre lógica ainda insiste: esse é o tipo de benefício que só ao culpado interessará. Pois bem, se mexeram comigo, com a velha e fiel fé do meu povo sofrido, então agora eu vou sacanear: mais honesta ainda vou ficar.
Só de sacanagem! Dirão: "Deixa de ser boba, desde Cabral que aqui todo mundo rouba" e vou dizer: "Não importa, será esse o meu carnaval, vou confiar mais e outra vez. Eu, meu irmão, meu filho e meus amigos, vamos pagar limpo a quem a gente deve e receber limpo do nosso freguês. Com o tempo a gente consegue ser livre, ético e o escambau."
Dirão: "É inútil, todo o mundo aqui é corrupto, desde o primeiro homem que veio de Portugal". Eu direi: Não admito, minha esperança é imortal. Eu repito, ouviram? Imortal! Sei que não dá para mudar o começo mas, se a gente quiser, vai dar para mudar o final!
segunda-feira, 10 de janeiro de 2011
Eterno (Carlos Drummond de Andrade)
Agora serei eterno.
Eterno! Eterno!
O Padre Eterno,
a vida eterna,
o fogo eterno.
(Le silence éternel de ces espaces infinis m'effraie.)
— O que é eterno, Yayá Lindinha?
— Ingrato! é o amor que te tenho.
Eternalidade eternite eternaltivamente
eternuávamos
eternissíssimo
A cada instante se criam novas categorias do eterno.
Eterna é a flor que se fana
se soube florir
é o menino recém-nascido
antes que lhe dêem nome e lhe comuniquem o sentimento do efêmero
é o gesto de enlaçar e beijar
na visita do amor às almas
eterno é tudo aquilo que vive uma fração de segundo
mas com tamanha intensidade que se petrifica e nenhuma força o resgata
é minha mãe em mim que a estou pensando
de tanto que a perdi de não pensá-la
é o que se pensa em nós se estamos loucos
é tudo que passou, porque passou
é tudo que não passa, pois não houve
eternas as palavras, eternos os pensamentos; e passageiras as obras.
Eterno, mas até quando? é esse marulho em nós de um mar profundo.
Naufragamos sem praia; e na solidão dos botos afundamos.
É tentação a vertigem; e também a pirueta dos ébrios.
Eternos! Eternos, miseravelmente.
O relógio no pulso é nosso confidente.
Mas eu não quero ser senão eterno.
Que os séculos apodreçam e não reste mais do que uma essênciaou nem isso.
E que eu desapareça mas fique este chão varrido onde pousou uma sombra
e que não fique o chão nem fique a sombra
mas que a precisão urgente de ser eterno bóie como uma esponja no caos
e entre oceanos de nada
gere um ritmo.
Casal de andarilhos
quinta-feira, 16 de dezembro de 2010
Diário de um dia vencedor! - III Jornada de Matemática (EE Luiz Chrisóstomo de Oliveira)
Preparativos, visitantes ilustres, jornais, torcida, ansiedade para o grande dia, com direito a torcida organizada e tudo! E ele chegou. Quantas coisas vividas! Ônibus, o 1º contato com uma cidade grande, 1ª viagem de metrô, hotel, elevador, sacada do hotel, rostinhos bobos com a imensidão de carros e de prédios, descobertas, botões, portas, interfone, elevador, elevador, elevador! Bagunça no corredor, acordando os vizinhos sonolentos, vida que sempre sonharam! Shopping, escada rolante, festa na Pink Biju, mais escada rolante, sorvete! Jantar, café da manhã, caminho do teatro, fotos! Crianças sempre certas (prestavam atenção em tudo e sabiam tudo!) e adultos quase sempre errados! “Não falei??” Ganhei filha e sobrinhos! Ganhei também dois dias inesquecíveis, que com certeza eles também nunca esquecerão!
Chegada ao teatro, encontro com os colegas de classe, euforia. Recepção, fotos, fotos, fotos! Preparativos, entrevistas, interação entre os grupos. Prontos, com camiseta, bermuda e tênis All Star. Atenção!! Começou!!
Porém, contrariando a mais forte lição para esses pequenos, a parceria, os organizadores da final da Jornada resolveram, não sei por que, realizar as provas com pontuação individual. E para eles, que contavam com um a menos, isso pesou bastante. Rostinhos preocupados, apreensivos. Mais uma vez à frente dos adultos, eles perceberam a desvantagem que teriam desde o começo, antes de nós. Mas mais uma vez, lutaram, foram guerreiros. Saíram perdendo, e chegaram a ficar em 3º lugar. Momento mais bonito, desafio sobre frações, crianças insatisfeitas com o resultado a que chegaram. Os outros grupos respondendo em fração, só o deles e decimal. Desespero. E ao sair o resultado, surpresa! Decimal também era aceito como resposta! Euforia, ânimo, corretores pulando nas cabines por ter havido um grupo que pensou diferente dos outros. Choro dos adultos na platéia. Mas mesmo assim, já era tarde. A reação veio quando não dava mais para eles. Porém, mesmo não conseguindo o 1º lugar, foram sim vitoriosos. Levaram o nome de nossa escola e nossa cidade muito longe, chegaram onde ninguém imaginava que chegariam. Venceram tantas coisas, aprenderam tantas outras. Orgulho, exemplo! Estão entre os cinco melhores do Estado, e se Deus quiser e permitir, e permitirá, ainda chegarão muito longe nesta vida! Serão felizes acima de tudo, e terão no estudo a base para uma vida melhor, aquela que eles merecem ter. Pode não ser igual a vida em um hotel de São Paulo, mas com certeza será cheia de realizações. Creio e desejo isso para eles e todas as nossas crianças!
Parabéns, queridos! Guerreiros que representam alunos da escola pública, capazes de realizar coisas e cheios do direito de as conseguirem! Parabéns, Eduarda, Gabriel, Leandra, Renata e Thamirez. Vocês são demais!!!
Vanessa Zordan
Amizade

Beijo! - Escrito em 2008.
Vanessa Zordan
***DEDICADO A FERNANDA NAVARRO
Quero mesmo e sempre acreditar que "não precisamos mudar de amigos, se entendermos que os amigos mudam."
segunda-feira, 31 de agosto de 2009
INGRATIDÃO
Chegou o dia, minha prima não iria mais me buscar. Sob uma enxurrada de recomendações de mamãe para que tomasse cuidado e não olhasse para o lado, fui para a escola certa de que meu plano teria êxito. Tocou o sinal da saída e esperei que meus "companheiros" saíssem na frente. Esperei também que se adiantassem um pouco, para que eu ficasse de longe e eles não percebessem que eu os acompanhava. Tudo transcorreu muito bem, até que eles dobraram uma determinada esquina, depois de muito andar. Então foi um susto. Previ que morassem mais perto de casa, mas calculei que pelo tanto que já havíamos andado, minha casa deveria estar próxima. Quando somos crianças, tudo parece tão mais longe! As coisas parecem maiores também. Deve ser por causa do nosso tamanho e o de nossas pernas. Então fiz o que meu irmão falou. Andei mais um pouco, tensa, até avistar o bar dos doces da minha infância e me sentir aliviada. Realmente o caminho era fácil, mas eu continuava não querendo voltar sozinha para casa. Então passei a acompanhar os meninos todos os dias. O plano era o mesmo, esperava que eles saíssem, se adiantassem, e seguia atrás, na segurança de saber que teria uma companhia, meio torta, mas teria. Também percebi que quando eles viravam a esquina era sinal de que não faltava muito para chegar à minha casa. Mas ainda tinha medo de ser descoberta. E se eles percebessem que eu os seguia e brigassem comigo? Provavelmente o fariam, ou zombariam de mim. Certeza!
Até que um dia, saí quase junto deles. Achei que ficaria estranho esperar que eles se adiantassem, pois estavam paralelos a mim, porém do outro lado do canteiro onde ficava o São Francisco. Na minha escola havia uma estátua de São Francisco de Assis bem no meio de um canteiro. Tanto fazia irmos por dentro ou por fora, pela calçada. Chegávamos à rua 15 de novembro, a que pegávamos em linha reta.
O menino maior me viu, e veio em minha direção. Fiquei paralisada, sem saber o que fazer. Teria sido descoberta? Estariam eles esperando uma oportunidade para me desmascarar? Não entendi muito aquele movimento dele em minha direção. Ao chegar mais perto, escutei-o dizer: “Você está sozinha, não? Venha conosco, sei que moramos perto”. Estremeci! Mas ao decifrar a mensagem, vi aquele rosto calmo, aquele sorriso bonito e o jeito bondoso do menino maior. Deu-me a mão, e fui sem pensar. O irmão mais novo, da minha sala, pareceu não ter gostado muito, mas nem liguei. Era pequena, mas já sabia apreciar boa companhia. E depois disso, todos os dias voltava para casa com eles, agora sem precisar de convites. Teria sido meu primeiro amor, caso eu fosse afeita a precocidades. Mas como não era, logo fiz amizade com algumas meninas da sala e a necessidade de me auto-afirmar na turma foi maior. Fui me distanciando dos novos amigos, à guisa de gente que nem ligava muito para mim. Renunciei, não sei o porquê, a companhia de quem me estendeu a mão, somente para que pudesse fazer parte da turma das meninas que eram constantemente elogiadas pela professora e merecer o prêmio de voltar para casa com elas.
Quando me dei conta disso, senti uma melancolia muito grande. O menino maior nem tinha nome, era relação na qual não se fazia questão de formalidades nem posições perante os mais velhos. Deve ter estranhado meu afastamento, até comentou certa vez em tom de cobrança branda. Crianças nem sempre sabem retribuir favores, e me sentia como se devesse algo, uma traição involuntária. Até hoje, quando lembro da minha negligência, sinto um gosto amargo na boca. Flor que se fechou na condição de ser somente espinho, ingrata.
Vanessa Zordan
domingo, 22 de março de 2009
NÃO É DIFRENTE, É ORIGINAL!
É uma questão a se pensar. Lembro de um programa onde se falava da vida escolar de um ruivo famoso que é extremamente inteligente, astro da música nacional. Poucos o conseguem achar bonito, mas muitos admiram seu estilo. Lembro-me que um professor disse que via uma bela imagem, de lá de cima, da sala dos professores, quando visualizava o tal músico lá em baixo, no pátio. Dizia que era muito bonito ver o reflexo dos cabelos vermelhos sob o sol da manhã, e que apesar de ele ser um adolescente introvertido, aquilo já mostrava a força que ele teria quando ficasse adulto. E teve mesmo. Talvez não fosse regra, mas uma das coisas mais interessantes que o professor guardou do músico foi esta imagem, vista só por uma das partes.
Já Clarice Lispector, em seu conto “Tentação”, fez o inverso do professor do músico. Ela conta a estória de uma menina ruiva, com soluço, que se sente diferente do mundo, das pessoas. Realmente, em nosso país, os ruivos somam uma pequena parcela da população. São raros, e talvez por isso precisem se auto-afirmar. “ Que fazer de uma menina ruiva e com soluço?” A “menina vermelha” do texto de Clarice se sente sozinha, e se encanta com um cão. Esse amor a 1ª vista acontece porque o cão também era ruivo, assim como ela. Os dois se conhecem, se apaixonam, desejam um ao outro. A menina se vê no cão, como se ele fosse o companheiro perfeito para a sua diferente condição de ter o cabelo vermelho e ninguém para dividir suas angústias. O cão estava ali, e era a cara dela. Hipnotizados um pelo outro, ela acredita ter achado a solução para seus problemas. Mas o cão já tinha dono, e não podia pertencer a ela. O soluço não cessou, e nem a busca pela identidade da criança. Mas ela não era uma criança qualquer, era ruiva. Também outras crianças de outras etnias passam por isso, mas a ruiva se sentia a mais diferente de todas. Mais atípica.
Bom, mas para encerrar esta pequena polêmica que meus sonhos afloraram, vou deixar uma opinião bem particular. Cá entre nós, realmente o professor do tal músico tinha razão, pois deve ser uma bela imagem o reflexo dos cabelos de um garoto ou garota ruivos sob o sol da manhã. Quantos versos um poeta não pintaria dessa imagem, não é mesmo?
Vanessa Zordan
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009
O QUE NÃO É PARA SER...
Mais sonhos invadiram o coração e a memória da moça, memória esta que era maior que a do computador. Gravou gestos, olhares, trejeitos, sorrisos e promessas na pasta das emoções, que para ela era o coração da alma. Com isso, não parou de sonhar. Julgou que o arquivo já estivesse salvo no coração dos dois. E foi acumulando novos arquivos, precisando até de um pen drive.
No plano real, sentia-se a personagem principal da estória de amor do livro mais lindo, que ao ler poemas ardentes, chorava de emoção por achar que sua história logo teria um final feliz. Mais uma vez, solicitou-lhe a presença por ter certeza que ele não a negaria. O mundo girou e girou. Conversas de passados distantes e sonhos futuros. Sentia-se a mocinha da comédia romântica que ao som de baladas chorava de emoção por saber que sua história logo teria um final feliz.
E, de novo, solicitou-lhe a presença por ter a convicção de que ele nunca a negaria. Só que desta vez, a Internet saiu do ar e ele não fez questão de manter a conexão por outros meios. Sentada no sofá da sala, ela passou drásticamente de personagem de vídeo clipe de cantora clichê que encerra a cena com um beijo a atriz principal de novela mexicana, e chorou copiosamente ao som de um bolero por saber que sua história teria um final. E teve mesmo. A lixeira do computador passou de vazia a cheia em segundos.
Vanessa Zordan
segunda-feira, 26 de janeiro de 2009
DÚVIDA X CERTEZA
Vanessa Zordan
MEU CASULO
O NADA
Vanessa Zordan
quarta-feira, 21 de janeiro de 2009
RELÓGIO
Vanessa Zordan
sábado, 17 de janeiro de 2009
PALAVRA
para expressar meus sentimentos.
Mas qual era mesmo a última palavra boêmia
que eu queria escrever nesta página
em noite fresca de lua cheia?
Seria amor?
Não sei , ela fugiu de mim.
Passou, como tudo na vida.
Vanessa Zordan
VERDADES...
Você: Pessoa que não percebe o encaixe falho.
Eu: Sonhadora ... Certeza!
Vanessa Zordan
CARLÃO!

Vanessa Zordan
sexta-feira, 16 de janeiro de 2009
SOLIDÃO
A HÓSPEDE
Mas agora era diferente, nós a receberíamos. E procuramos pensar em tudo o que íamos precisar, desde organizar as roupas dela no armário, abastecer a geladeira com o necessário, alguns remédios que não podem faltar quando se hospeda alguém, e coisas assim.
Conforme as horas passavam, a ansiedade aumentava mais e mais. E a hóspede atrasou, para acabar de completar a angústia. Uma sucessão de sentimentos me atordoavam. Não sabia ao certo o que ela significaria para mim. Tinha, como obrigação, amá-la com devoção. Mas como gostar de alguém que você ainda não conhece? E a culpa aumentava, pois eu, dentro de mim, sabia que queria e até necessitava viver esse amor. Caso contrário, que espécie de ser humano seria eu? Fria? Coração de gelo? Desesperador! E a hóspede que não chegava...
Foi quando escutei os cachorros latirem e o portão se abrir. Meu coração disparou, como se fosse ter um enfarto. Era ela. Ficaria conosco o resto da tarde de sábado e só iria embora no domingo, também à tarde. E chegou linda, porém quietinha. Queria conhecê-la melhor, mas ela não me deu muita bola. Preferiu minha mãe, e quando se viu sozinha conosco, sem nenhum representante da casa dela, destoou totalmente da imagem inicial e começou a chorar desesperadamente. Desesperados ficamos todos, sem saber o que fazer. Oferecemos tudo que havíamos preparado para recebê-la, verificamos a roupa, para ver se não a incomodava, e nada. O choro não cessava. Depois de algum tempo, meu irmão conseguiu acalmá-la um pouco. Mas comigo não tinha papo, ela não me queria.
Fui para o quarto, desolada. Era necessário que ela se habituasse a freqüentar nossa casa, pois aquilo seria uma constante. Mas como fazê-la entender, ela que era a mais inocente de toda aquela história. Todos tínhamos alguma responsabilidade, menos ela, e parecia que era justamente sobre ela que o castigo recaía. Por isso chorava, e chorava com força e mágoa. A vida lhe deixou a missão de conquistar seu lugar no mundo e as pessoas a sua volta, fardo injusto para uma inocente. Mas como ainda não compreendia isso, chorava.
Minha mãe foi uma guerreira. Sabia que teria que vencer nossa hóspede pelo cansaço, e que ela precisava entender que em nossa casa estaria protegida. Para isso, no intento de fazê-la dormir, ficava de um lado para outro com ela chorando nos braços, e incubou a idéia de cantar, obtendo sucesso. Depois de horas de choro ferrenho e canto, ela adormecia, e minha mãe ia atrás, exausta.
Meu irmão também progredia a passos largos em seu relacionamento com ela. Meu pai só observava de longe, sem esforços. Quanto às minhas investidas, tinham sucesso parcial. Conseguia a atenção dela por pouco tempo, depois ela me desprezava.
Algumas vezes, até saía de casa para não ver a cena da hora de dormir. O choro e o canto de minha mãe, que me cortavam o coração. Sentia dó das duas, mas principalmente da hóspede, que deveria se perguntar: “por que estão fazendo essa maldade comigo, me tirando de casa sem perguntar se eu quero?” Aos poucos ela foi entendendo que possuía duas casas, dois lares. E foi ficando mais tranqüila.
Então ocorreu que um dia à tarde ficamos sozinhas, somente eu e ela. Minha missão era fazer com que ela dormisse. Fiz inúmeras tentativas, todas frustradas. Como entardecia e o sol já ia baixo, mas o calor era infernal, resolvi dar uma volta a pé com ela pelo bairro. Com a brisa em nossos rostos, pude arejar melhor minhas idéias. Não tinha motivo para sentir dó dela, ela era linda, saudável, dona do sorriso mais encantador que já vi. E os olhos, ah, que olhos! Virou atração do bairro. Todos queriam vê-la. E eu me senti orgulhosa. Ela era um sonho, e se chorava, não era porque não gostava de nós, mas porque chorar faz parte da condição humana. Era uma defesa para a nova situação que enfrentava. Até meu pai, mais sisudo e contra a hospedagem precoce, já se rendia aos encantos dela.
Quando percebi que o passeio já a cansara, pensei que agora ela poderia dormir. Cheguei em casa e ninguém havia aparecido ainda. Já escurecera. Sentei-me no sofá. Ela estava em meus braços, e percebi que esperava algo de mim, mas não sabia o quê. Os olhinhos cor de jabuticaba, arredondados e com um leve puxadinho nos cantos, com os cílios longos, curvados e bem definidos me fitavam insistentemente. E me olhava nos olhos um misto de seriedade grave e ternura infinita dos anjos do céu. Já reconhecia em mim uma pessoa em quem ela podia confiar.
Comecei então a pensar no que fazer. Lembrei-me de mamãe. Sim, minha mãe canta para ela, talvez seja isso que ela queira de mim. Mas cantar o quê? Mais uma vez mamãe surgiu na minha frente, ao lado de vovó. Lembrei-me das músicas que as duas cantavam para mim. Automaticamente me veio à memória a festa junina do bairro em que dancei, com cinco anos. Neste dia, minha mãe me ensinou duas modinhas de São João. E foi no banheiro, ela acabando de tomar banho, pois trabalhava muito e quando chegava em casa eu literalmente pisava onde ela pisava, não queria desgrudar. Depois lembrei do balanço da área dos fundos, trazido e instalado cuidadosamente por papai, no qual insistia para que vovó me empurrasse. E ia tão alto, que conseguia ver o céu atrás do meu telhado e também o telhado da casa dos vizinhos. Foi então que tive a idéia, lembrei da musiquinha que sempre cantava no balanço, e que me embalava também quando a saudade de mamãe apertava de fazer doer, e com o auxílio de uma cadeira eu subia no armário, onde dentro da caixa de remédios (ao meu alcance!) eu havia escondido os retratos 3X4 dela, que me serviam de consolo nestas horas de ausência materna. Inútil pensar que ela não soubesse que os retratos estavam ali, só não sabia quem os colocara e com que intuito.
Mas voltando a minha hóspede, aquela era a música perfeita para contentar aqueles olhinhos insaciáveis. Então, principiei a cantar baixinho: “Felicidade foi-se embora e a saudade no meu peito, “inda” mora e é por isso que eu gosto. Lá de fora porque sei que a falsidade, não vigora”. E os olhinhos cheios de sonhos se abriram mais e começaram a prestar uma atenção enorme. Então continuei: “A minha casa fica lá de trás do mundo, mas eu vou em um segundo quando começo a pensar. O pensamento parece uma coisa à-toa, mas como é que a gente voa quando começa a cantar?”
Os olhinhos se moviam dos meus olhos para a minha boca, e segui cantando. Ela se fixou nos meus olhos de novo, e com a mãozinha atrevida começou a brincar com uma parte do meu cabelo que se soltara do restante amarrado, creio que a franja. E após um tempo, ela adormeceu. A luz apagada, a televisão ligada sem volume, o sol lá fora que já se escondera. Um silêncio profundo reinou ali, como se eu estivesse num altar, rodeada de anjos, assistindo ao sono daquela criaturinha por quem meu coração começava a bater mais forte, por si só, sem cobranças, assim como deve ser o amor verdadeiro. Foi a descoberta do amor mais puro e sincero, um êxtase eterno de pura magia.
O portão se abriu e o encantamento foi quebrado. Era a mãe dela que vinha buscá-la. Não tive outra alternativa senão entregá-la. Ao passar de um colo para o outro ela mal acordou, e a mãe perguntou: “Estava gostoso o colinho da titia? Mas agora temos de ir.”
terça-feira, 13 de janeiro de 2009
O QUE EU QUERO
Cheia de poesia.
O sentido real é muito chato.
Abaixo à sem-gracisse,
E viva a subversão!!!
Vanessa Zordan
OBJETO DIRETO
DO MESMO JEITO
menor que existir.
se só existimos sendo,
e se não somos, não existimos?
Os dois tinham que ter o mesmo tamanho!
Vanessa Zordan
E O QUE É PEQUENO...
Vanessa Zordan
ESTA É PRÁ VOCÊ
Nesta confusão de sentimentos, certo dia eu notei a meu lado, depois de longos minutos, como era de minha natureza (“Fantástico mundo de Boby”), uma moça. A conversa iniciou-se, pouca, seca. Depois de um tempo, descobrimos uma coisa em comum. Morávamos perto. E o combinado foi uma carona no primeiro horário do dia seguinte, dada por mim a ela, uma vez que meu pai me levaria para a escola. A troca de telefones selou o combinado, que não ficou bem certo: “isso se meu sogro não for me levar”. Era casada, o que a princípio impossibilitava uma possível amizade, ou o que eu conhecia por amizade.
À noite, a espera do telefonema. “Será que ela vai ligar?”. E logo depois do jornal, o toque. Era ela, íntima, sem cerimônia: “Você me pega em casa, então? Amanhã antes das 7:00 ?”. “Ok”, respondi. Menina espevitada, tão solene na sala dos professores, e tão outra ao telefone. Engraçado, mas gostei dela. Precisava de alguém para conversar em território que eu ainda não conhecia direito. E para a minha surpresa, em pouco tempo estava freqüentando a casa dela, conhecendo sua história. A afinidade foi crescendo em algo que transcendia a profissão, as diferenças, o vocabulário e a maneira de se portar. Não se tratava somente dos mesmos gostos, tratava-se também de troca de carinho e de experiências, mais as delas do que as minhas. Típico da grandeza de quem sabe ensinar, como ela sabe. E aos poucos ela foi me resgatando do abismo e me mostrando o caminho das pedras, com tudo que eu ia encontrar, dos espinhos às flores, devidamente explicados e prontos para mim. Prevendo coisas, adivinhando sentimentos, trazendo apoio e consolo. Em alguns momentos, ela foi deixando as coisas por minha conta, dizendo que acreditava em mim e me incentivando a caminhar sozinha. Me deixou grandes heranças, como falar palavrão e não levar desaforo para casa. Me fez sentir uma vontade imensa de ter letra bonita e raiva de mim mesma por ter feito Letras e não História. Depois somamos as minhas Letras com a História (e estórias) dela, e o resultado foi um misto de sentimentos que partiram de descobertas em conjunto a comprar coisas iguais à 250km uma da outra. Intenso, não?Menina do cabelo dourado, que com sua generosidade me ensinou a ser generosa também, e com quem aprendi a ser o que sou hoje. Pessoa a quem devo tanto, e com quem fiz descobertas importantes em horários atípicos, como sábado a tarde tomando café. Menina com quem minhas afinidades foram além das caixas de sucrilhos, da manteiga e não margarina e de certa marca de achocolatado em pó, e que passaram também de conversas intermináveis sobre Drummond, Quintana, Clarice, Che Guevara e Fidel. Chegaram a um encontro de almas. É o que eu chamo de amizade.
Vanessa Zordan
MUDANÇA DE NOME

Vanessa Zordan
CIRANDA
ersário das crianças do bairro, pegar na mão e, em alguns casos de intimidade maior, dar um beijo, que poderia ser na boca. Além, é claro, do prazer de dizer aos outros que namorava, e quem.Ela queria, ele nem tanto. Ela escrevia cartinhas. Ele as lia, e ficava com o mérito, recebendo elogios orgulhosos do pai porque já estava mostrando a que veio. Além disso, ela não era a única e nem a mais bonita das meninas que o paqueravam, o que justificava o orgulho do pai. Dançariam na festa junina do bairro, ensaiaram o mês inteiro, mas no dia ele teve que fazer uma viagem e ela, frustrada, tratou de arrumar outro par para dançar.
Namoraram (pelo menos na cabeça dela), casaram-se, isso sim! Com direito a enfeites no cabelo, cerimônia, flores, padrinhos e a molecada do bairro em peso prestigiando o acontecimento, que se daria no campinho do bairro. Digo se daria porque nesse dia o noivo não apareceu, e a cerimônia foi acontecer, de fato, dias depois, mais simples e com menos testemunhas. Mas concretizou-se, com troca de alianças com anel de doce e o tão esperado sim. O padre foi o irmão da noiva. Depois disso, não foram mais nada, acho que nem amigos.
Cresceram. Ele namorou e separou-se. Ela assistiu. Mais tarde, ele cogitou ter qualquer coisa com ela. Ela achou que era brincadeira e nada aconteceu. Estudaram, ela mudou de casa. Ele namorou de novo, ela sempre a procura, mas nunca sozinha. Porém, nunca com a pessoa certa. Ele mudou de cidade, mas vinha sempre à casa dos pais. Ela ainda estava no mesmo lugar.
Ele separou de novo, pediu para ela o telefone de uma colega com quem ele já havia se relacionado. Ela não o tinha, mas desmanchou-se em empenhos para conseguí-lo, torcendo para que desse certo, pois eram duas pessoas legais. Ele voltou com a ex, e esta expressava um ciúme ferrenho dela que, esqueci-me de contar, desde os tempos imemoriais, era a melhor amiga da irmã dele. Ela namorou também, separou, foi morar fora. Passou algum tempo. Ele teve vários ganhos, ela também. Ambos tiveram perdas, sobretudo amorosas, sofreram neste quesito, procuraram incansavelmente o amor, enrolaram-se com a distância, que sempre os fazia ficar longe de quem amavam. Deram muitas voltas nesta vida, e em uma delas, tempo presente, caem agora cara-a-cara um com o outro. Sentimentos esquecidos fervilham, como num vulcão em erupção. Doces lembranças vêm à tona, sentem-se bem em compartilhá-las. Descobrem afinidades, ouvem coisas agradáveis, percebem o cheiro da flor e a beleza do céu. Sentidos aguçados. E agora, o que será que o destino reserva para esses dois corações?
Vanessa Zordan
FOI ASSIM...
Vanessa: Oi...
Luiza: “Cê” sabe, o menino...
( Xiiii, lá vem história)
Vanessa: Que que tem o menino?
Luiza: Foi assim, tia. O menino “tava” lá na “fente” da casa dele conversando com o “miguinho” dele.
Vanessa: Hã...
Luiza: Aí, o menino chamou a mãe dele. Ele chamou, chamou, chamou, e ela não veio. Chamou e ela não veio e tal, e tal.
Vanessa: E aí?
Luiza: Ele chamou e ela não veio, aí ele ficou “fudido” , tia. Bravo mesmo!
Vanessa: Hahahahaha...
É, peço perdão à pedagogia e ao bom comportamento, mas tive que rir!
Vanessa Zordan
A VOLTA
A noite acabou, volto para a casaDesta vez acompanhada por você.
E por mais que pareça que não
Tudo em mim ficou gravado, tatuado,
De um jeito que não sai mais.
A volta, principalmente.
A paisagem do céu
Um grande desenho de nuvem
Obtuso, cheio de significados
Em contraste com o cinzento céu,
Que foram muito bem observados por você.
E ficaram em mim a bela paisagem,
O céu, a nuvem, a esperança da manhã,
A discussão sobre Jean Paul Sartre
E você...
Ficaram em mim...
Desculpa se não me entrego
Se não me jogo de olhos fechados.
Perdão por essa dificuldade
De ser quem eu sou
Principalmente porque sei
Que com você eu posso
Tirar a roupa, falar bobeiras
Me descabelar, fazer o que eu gosto
Te fazer delirar e esquecer de sofrer!
Desculpa se eu não faço
As coisas como elas devem ser
Ou melhor, como elas não devem ser.
Mas é que estou me escondendo de você
E me escondendo de mim.
Vanessa Zordan
segunda-feira, 12 de janeiro de 2009
CAIXA DE MADEIRA ESCURA

E entre outras dores também muitos amores. Foi naquela rua que escrevi muito da minha história. A casa nova era no mesmo bairro, mas a velha, ela sim guardava coisas. O bolo trazido de surpresa pela tia-madrinha para comemorar meu aniversário, a mesma por quem cultivava esperas ansiosas de final de semana e que o passeio preferido era posar na casa dela para ir ao mercado e fazer bolinhas de sabão com a minha prima. O convite improvisado para as crianças que brincavam na rua. O cessar da brincadeira para ir tomar banho e começar a festa, sem presentes, pois ele já era o bolo. As festas das outras crianças do bairro. Os bailinhos. As brincadeiras no campinho e o noivo que me deixou “esperando no altar”. Casamos dias depois, e não fomos mais nada, nem amigos. As melhores amigas que tive, inclusive a psicóloga por maioria de votos e hoje por profissão, com quem ri, escrevi carta quilométrica que graças a Deus não enviei e passei sagradas horas conversando ao vivo e ao telefone, sob ameaças de que me tirassem o aparelho da tomada. As outras todas que passaram por lá, as poucas que ficaram. As que vinham de outros bairros, estudar, fofocar e trazer bolo de aniversário. Os outros bairros para onde eu ia com as mesmas amigas estudar, fofocar e levar bolo de aniversário. As cartinhas e as frases feitas nelas. O luto pela morte dos ídolos e pela "perda" de um amor, quando parecia que o mundo ia acabar e que nunca mais conseguiríamos andar nas nunvens. As belas mensagens, os momentos inesquecíveis. A volta da escola, onde se compartilhava risadas, sonhos e dúvidas. E na caixa tinha ainda muita coisa. O desabrochar da menina tímida e insossa, bondosa ao extremo, que chegava a ser chata. Aquela que ainda carrega características que aos olhos dos outros parecem frias, pois entende o lado e os motivos de todos, até dos que lhe fazem mal, justificando suas atitudes e às vezes culpando ela mesma. A mudança sob lentes de contato no lugar dos óculos fundo de garrafa (abençoado Dr. João Batista), e de algumas coisas no rosto, mas que, como dizem os amigos, não me mudou a fisionomia, regada a intenso tratamento dentário com aparelho ortodôntico e injeção de auto-estima. O processo de “deixar de ser boba”, que ainda não terminou, mas que progride a passos não lentos, mas naturais, também é lembrança da caixa de madeira escura da casa na outra rua. Os anos universitários em que aprendi a amar a Língua Portuguesa e tomei gosto maior pela literatura. As novas amizades do período diferente e arrojado em que se tem o tempo da juventude e o poder das escolhas nas mãos. O início da profissão, quando percebi que era nada perante o mundo e necessitava escrever uma nova história. Todos esses episódios tinham os mesmos caminhos de volta para a casa, as mesmas ruas, o mesmo céu, fosse ele ensolarado, nublado, chuvoso ou estrelado. Todos esses caminhos de reflexão e descobertas davam naquele bairro, naquela rua, naquela casa.
Mas no dia seguinte começaria um processo de desintoxicação. Não sabia até que ponto, pois lembranças não poderão ser apagadas, mas sabe-se que outras virão no lugar, já que tudo que é presente um dia virará passado, e de tudo que nos é caro, um pouco ficará, mesmo que a mente não dê conta de lembrar explicitamente. Sim, é bobagem achar que as coisas acabam, quando na verdade elas começam. Estão sempre começando, como começa cada dia que colocamos de baixo dos olhos e vivemos. Mas agora, não podia me perder muito nas lembranças, o dia seguinte seria longo e cansativo. Porém, como esquecer certas coisas se da laranja eu só queria um gomo e do limão só um pedaço, enquanto a borboletinha estava na cozinha e o chocolate ainda era doce? O jeito era mesmo preparar a caixa de madeira escura para a viagem. Impossível deixá-la para trás. Estava decidida. Falem o que for sobre o peso da minha mala, ela não vai parar de pesar, pois dela só sairá aquilo que me trair, como a vovó, por exemplo.
Vanessa Zordan
DOMINGO

É claro que, se pudesse escolher, a decisão não seria tomada em um domingo. Exatamente por ser um dia sem graça, início de semana para calendários insensíveis, não seria o ideal para terminar um namoro. Términos assim, importantes, caem melhor em uma segunda feira, para que as mágoas sejam choradas durante a semana, ou mesmo em uma sexta. Sexta começa o final de semana, e para os mais animados, a chance de chorar só no sábado, para no outro dia se encher de tédio é maior. Mas num domingo! Dia de começos, não de finais. Dia em que não se pensa muito no que se faz. Mas ela pensou e repensou, decidiu, sentenciou, pesou prós e contras. E deixou-se estar na preguiça, vendo o dia passar.
O peixinho no aquário borbulhava o tédio e a tensão exalada na sala. Ela manteve-se calada, como se aquele momento fosse demorar ainda algumas horas para chegar. Já sabia o que dizer, mas sabia também que na hora sairia tudo diferente. Esperou, escreveu, procurou textos, músicas, algo que pudesse acalmar seu coração. Engraçado pensar no por quê de as coisas acontecerem. Quem sabe se tivessem reencontrado-se alguns anos antes, teria sido diferente. Ou será que aquilo não daria certo mesmo, e a insistência era inútil? Mais inútil ainda era a espera. Por que não ligava logo para ele e acabava com aquele martírio? Por telefone mesmo? Pensando na pieguisse das músicas sertanejas, será que seria covardia mesmo terminar um namoro por telefone em uma noite de domingo? Mas como explicar miudamente o que acontecia com seu coração? Realmente, por telefone não dava, necessitava de olhos nos olhos. Era o mínimo que poderia fazer por ele.
E como em um flash, vieram à tona sentimentos passados, relacionados 1º namoro dos dois. Tinham em comum a adolescência, eram diferentes, mais tolerantes. Agora, do alto de suas condições, o coração se fechara para muitas coisas, outros casos de sentimentos feridos em muitas ocasiões, um longe do outro. Agora julgou que conseguiria resgatar o amor daquele tempo. Mas não conseguiu. O sentimento se tornou nublado, foto em sépia que congelou o passado e não conseguiu colorir o presente. Um sentimento que não se sabe de onde veio, e muito menos (pior!) para onde foi. Não havia mais o sentimento caloroso da paixão, e aquilo lhe doía o coração, lhe gelava a alma. Não sabia se era doloroso ou dolorido, porque nunca conseguiu saber qual dos dois dói mais. Mas doía. Triste sentir-se assim, inútil. Vilã da estória, insensível.
Mas naquela noite ela foi a vilã. E ao ver lágrimas caírem dos olhos dele, chorou de soluçar. Sentiu-se mal, zonza, perdida. Será que era a melhor saída. Retóricas por parte dele tentavam consertar as indisponibilidades, mas não conseguiram convencê-la. Doía, mas não tinha como voltar atrás. Conversas que procuraram garantir a amizade instalaram-se no diálogo, com o moço já rendido pela triste realidade. Um último abraço selou o combinado, "deixa como está mesmo, se você não quer mais, não vai dar certo". E ela o viu partir, e pela última vez o barulho do motor do carro virando a esquina. Confusão de sentimentos. Olhou para o céu. E a lua, pouco solidária, continuou a brilhar. Mas naquele dia, domingo, ela realmente não viu graça.
Vanessa Zordan



